Começar a disparar antes de conhecer a pessoa
O erro que mais vejo, e que cometi durante anos, é ligar os flashes e começar a fotografar logo à chegada da pessoa. Do outro lado da câmara está alguém que entrou num espaço desconhecido, com luzes fortes e um estranho a apontar-lhe uma lente. Nesses primeiros minutos, a expressão é de alerta, não de naturalidade.
Hoje reservo um bocado do início para conversar, mostrar o estúdio, deixar a pessoa sentar-se e tocar no fundo de papel. Ainda não disparo, ou disparo apenas testes de luz com ela de costas ou de lado. Quando a conversa desce de tom, os ombros também descem, e a primeira fotografia a sério já parte de um sítio mais calmo.
Esta pausa não custa tempo, poupa-o. Uma sessão que começa tensa obriga a repetir dezenas de disparos à procura de um gesto verdadeiro, e esse gesto raramente aparece quando a pessoa ainda está a medir-nos.
- Mostre o espaço e explique o que vai acontecer.
- Faça testes de luz sem exigir pose.
- Deixe a pessoa escolher onde se senta.
Dar ordens em vez de dar referências
Pedir «sorria», «relaxe» ou «olhe para mim naturalmente» costuma produzir o contrário do que se quer. Quem ouve «relaxe» fica a pensar em relaxar, e o corpo torna-se ainda mais rígido. As instruções abstratas obrigam a pessoa a interpretar e, no processo, a perder a espontaneidade.
Funciona melhor dar indicações físicas e pequenas: apoiar o peso na perna de trás, inclinar o queixo um dedo para baixo, olhar para um ponto da parede e depois para a lente. São gestos que se executam sem teatro. E convém corrigir uma coisa de cada vez, porque três correções seguidas fazem a pessoa sentir que está a falhar.
Quando uma pose resulta, digo-o em voz alta. Ouvir «assim está bem» dá mais segurança do que qualquer elogio genérico, e a pessoa percebe o que repetir.
Ignorar as mãos e os pequenos detalhes
Quem fotografa retrato aprende cedo a olhar para o rosto e esquece o resto. As mãos aparecem na imagem a meio do caminho: fechadas em punho, escondidas nos bolsos, cortadas pela moldura ou demasiado próximas da câmara, onde a perspetiva as faz parecer enormes.
Uma solução simples é dar-lhes uma tarefa discreta, como segurar o punho do casaco, pousar uma mão na outra ou tocar na nuca. Outra é recuar um pouco e usar uma distância focal mais longa, que comprime melhor as proporções. Vale também a pena olhar para a gola, o cabelo sobre a testa, um fio solto, antes de disparar e não na edição.
Nada disto exige equipamento novo, só o hábito de percorrer a figura de alto a baixo antes de cada série. Esse minuto de verificação evita muitos arranjos tardios.
- Verifique mãos, gola e cabelo antes de cada série.
- Prefira uma focal mais longa para retrato.
- Evite mãos coladas à lente.
Tratar todas as pessoas com a mesma pose
É tentador ter uma receita que funcione e aplicá-la a toda a gente: três quartos, queixo para baixo, sorriso discreto. O problema é que cada rosto e cada postura pedem uma coisa diferente. Uma pessoa alta e angulosa pode ganhar com a cabeça mais descaída, enquanto outra, de feições suaves, precisa de mais firmeza no ângulo.
Observo primeiro como a pessoa se senta quando acha que ninguém está a ver. Esse gesto espontâneo costuma ser o melhor ponto de partida, e depois ajusto à volta dele. Também pergunto de que lado prefere ser fotografada; muita gente sabe, mesmo sem saber explicar porquê.
O retrato fica mais verdadeiro quando a pose nasce da pessoa e não do manual. As receitas servem para começar, mas deixam de servir quando o rosto à nossa frente as contraria.
Mostrar o resultado cedo de mais ou tarde de mais
Há quem nunca mostre o ecrã durante a sessão, e há quem mostre cada disparo. Ambos os extremos trazem problemas. Sem ver nada, a pessoa fica insegura e imagina o pior; vendo tudo, começa a corrigir-se sozinha, a julgar o próprio rosto e a perder a naturalidade que se andou a construir.
O meio-termo que me tem servido é mostrar uma ou duas imagens no fim da primeira meia hora, depois de a pessoa já estar à vontade. Serve para confirmar que está tudo bem, para ganhar confiança e para acertar o que ela deseja evitar, como um ângulo de que não gosta.
Depois guardo o ecrã e continuo. Uma pessoa tranquila com o que viu fotografa-se melhor do que outra a quem se escondeu tudo ou a quem se mostrou demais.
Ter pressa em terminar
Muitas das melhores imagens de uma sessão surgem no fim, quando a pessoa já se esqueceu da câmara e a conversa se tornou comum. Se terminarmos mal o cansaço aparece, perdemos precisamente esse momento. Dar por encerrada a sessão logo após a pose «certa» é um erro silencioso, difícil de notar porque não se vê o que não foi fotografado.
Costumo deixar alguns minutos de folga, com a luz ainda ligada, e continuar a falar. Às vezes digo que acabámos, e é aí que o ombro cai e o riso sai sem esforço. Não é um truque, é só respeitar o ritmo de quem está diante de nós.
Por isso, planeie a sessão com margem. Menos pressa dá mais escolha, e escolher entre imagens vivas é sempre melhor do que corrigir imagens tensas.
Quase todos estes erros nascem da mesma pressa: querer a imagem antes de existir a confiança. O retrato de estúdio pede tempo para conversar, instruções simples e atenção ao que a pessoa faz quando não posa. Nestas semanas de início de outono, em que a luz da tarde convida a sessões mais calmas, vale a pena abrandar e deixar que a câmara chegue depois da pessoa.
