A mensagem da Marta, no início do outono
A Marta escreveu-me nestas semanas de início de outono, depois de ler um dos textos do blogue. Tinha montado um pequeno estúdio no quarto livre de casa, com um flash, um difusor e um rolo de papel cinzento preso à parede com fita. Os retratos da irmã saíam sempre com um tom sujo, meio esverdeado, e ela estava convencida de que o flash era mau ou de que não sabia usá-lo.
Pediu-me ajuda sem grandes esperanças. Mandou três fotografias e uma descrição do espaço: uns três metros de largura, uma janela do lado esquerdo, parede branca atrás do rolo e um soalho de madeira clara. Contei-lhe que, antes de mexer em qualquer definição, gostava de perceber o que estava realmente atrás e à volta da pessoa fotografada.
O que as fotografias mostravam
Ao ampliar os ficheiros, o problema ficou claro. O papel cinzento estava demasiado perto da modelo, e a luz do flash, depois de lhe bater no rosto, continuava até ao fundo e voltava para trás. Cada ponto do papel recebia luz diferente, e por isso o cinzento variava de um lado ao outro da imagem, ora mais claro, ora mais escuro.
Havia ainda uma coisa que ela não tinha reparado. O soalho de madeira clara refletia um tom amarelado para a parte de baixo do rosto, e a parede branca do lado oposto devolvia luz fria. Eram duas cores a misturarem-se na pele, e a câmara fazia o que podia com isso. O flash estava bem; o cenário é que estava a trabalhar contra ela.
Afastar o fundo antes de mudar de equipamento
A primeira sugestão foi a mais simples e a que não custa nada: puxar a modelo para a frente. Com cerca de um metro e meio entre a pessoa e o papel, a luz principal deixa de chegar ao fundo com força, e o cinzento passa a ser mais uniforme e mais escuro, sem ser preciso tocar na potência do flash.
A Marta fez a experiência nessa mesma tarde, com a irmã de pé onde antes estava sentada. Mandou-me duas fotografias novas, lado a lado com as anteriores. O cinzento já não tinha manchas, e a pele ficou com um tom muito mais neutro. Disse-me que ficou um pouco envergonhada por ter culpado o flash durante semanas.
- Afastar o modelo do fundo reduz a luz que lá chega
- Um fundo mais distante fica mais escuro e mais regular
- Convém testar com a mesma potência antes de a alterar
As superfícies que também fazem parte do fundo
Resolvido o cinzento, restava a cor que vinha do soalho e da parede. Não propus nada de caro. Pedi-lhe que estendesse uma manta cinzenta sobre a zona do chão visível no enquadramento e que pendurasse um pano escuro do lado oposto ao flash, a uma altura em que não aparecesse na fotografia.
Expliquei-lhe uma ideia que repito muitas vezes: num estúdio pequeno, tudo o que está à volta da pessoa é uma superfície que devolve luz. Paredes claras abrem sombras, chãos coloridos tingem a pele, e uma porta envernizada pode criar um reflexo onde ninguém o espera. Antes de comprar mais material, vale a pena olhar para o espaço como um conjunto.
Escolher o papel sem gastar demasiado
A Marta perguntou-me se devia trocar de papel. Respondi que, por agora, não. O cinzento médio é uma boa escolha para quem começa, porque perdoa pequenas diferenças de exposição e dá bons resultados tanto em cor como em preto e branco. O branco exige muita luz para ficar branco a sério, e o preto engole pormenores se o fundo ficar mal separado do cabelo.
Sugeri-lhe que guardasse o rolo, cortasse a parte suja ao fim de algumas sessões e prendesse o papel de forma a que não fizesse ondas, porque as dobras apanham luz e aparecem como linhas. Um suporte simples, dois grampos e um pouco de cuidado ao enrolar chegam. Equipamento melhor pode esperar até ela perceber o que lhe falta de facto.
- Cinzento médio perdoa erros de exposição
- Branco puro pede mais luz e mais distância
- Papel com dobras mostra linhas na imagem
O que ficou desta troca de mensagens
Passadas duas semanas, a Marta enviou-me uma sequência de retratos da irmã e de um amigo, todos com o mesmo fundo uniforme e uma pele sem dominantes estranhas. Já não falava do flash. Falava de onde pôr o candeeiro, de como arrumar o pano escuro e de quanto espaço precisava de deixar entre a pessoa e o papel.
Gostei de ver a pergunta mudar. Começou por querer um equipamento melhor e acabou a olhar para o estúdio como um espaço onde cada metro quadrado tem um efeito na imagem. É uma mudança de atenção que serve a qualquer pessoa que fotografe em casa, com pouco material e muita vontade de aprender.
A história da Marta lembra que, num estúdio pequeno, o fundo e as superfícies à volta pesam tanto como a luz. Antes de culpar o flash ou pensar em comprar mais material, vale a pena afastar o modelo do papel, olhar para o chão e para as paredes e testar de novo com calma. Muitas vezes, o problema está no cenário, e resolve-se com um metro de distância e uma manta.
